PEÇO PERDÃO AO SOL

Luiz Antonio Nunes

 

Peço perdão ao Sol, por não reparar o seu nascer, tampouco sentir o seu calor.

Peço perdão a Lua por não mira-la mais, tampouco saber em que fase ela está, de que forma.

Peço perdão ao dia, mas não o perdôo por demorar a passar.

Peço perdão a noite por não temer sua escuridão, tampouco notar seu manto negro retirando-se da Terra, porém,  não a perdôo por passar tão depressa e por vezes me enviar o sono para derrubar-me exausto.

Peço perdão aos amigos, companheiros de copo, de tragos, de verdades e mentiras.

Peço perdão ao time do coração, ao meu craque que guardo a camiseta com seu número, porém, sequer a vejo ou a toco, quebrando um antigo e sagrado ritual.

Peço desculpas aos meus irmãos, papai, mamãe, aos tios, as tias, primos, avós e demais parentes que me ligam e encontram a voz metálica da secretária eletrônica.

Peço perdão a Deus, por não ter falado tanto com ele o quanto deveria, e ainda uso seu nome em horas impróprias.

Peço desculpas ao meu chefe, por não ficar mais temeroso e trêmulo, quando ele me chama na sua sala.

Peço desculpas ao meu carrão, que dava banho e lustrava, todos os finais de semana.

Peço desculpas, aos demais condôminos, por não reclamar mais do síndico, e aceitar  pacificamente as prestações de contas e as contas que lotam minha caixa de correio.

Se esqueci de alguém, ainda assim peço-lhes desculpas.

 - É que estou amando.

Amando uma criatura meiga, divina, jeito de menina e corpo de mulher, que tem um sabor de paraíso, mas é um convite ao pecado, um beijo quente, úmido, arrebatador, um olhar meigo e pidão.

Essa criatura tem povoado meus pensamentos, diariamente, ela simplesmente tem o dom de me fazer feliz.

Mal nos olhamos, nossos corpos se fundem num côncavo e convexo, um calor funde nossos corpos, uma sintonia quase coreografada  nos invade, somos um só, só um, num frenesi calmo e por vezes tão intenso que molhamos a cama de suor e inexplicavelmente tão sagrado, que por vezes diminuímos o ritmo, para aproveitar cada segundo.   É incrível, como conseguimos conversar tanto, por horas, dias, meses, sem pronunciar uma palavra.

Há uma leitura, um sincronismo, um arrebatamento.

Por que precisamos ir ao banheiro? Comer? Beber?

Quando consigo dormir, esta criatura é a última que lembro, é com quem sonho, e antes mesmo do primeiro suspiro ao acordar seu olhar meigo e pidão me vem à mente.

Quando estou com ela, tenho a nítida certeza de que já a conhecia só não a havia encontrado ainda.    Adoro vê-la dormir, velar seu sono, contornando suas sobrancelhas, seus lábios, com a ponta do dedo, e me seguro para não cometer a covardia de usurpar-lhe seu direito de sono.   Mas por vezes, acordo e encontro dois olhos de faróis, mirando-me, com a respiração tão próxima que chego ouvir seu coração bater, meu susto ao acordar é imediatamente contido por um olhar meigo, de cuidado, (que Deus me perdoe), mas só notara antes este olhar puro, apaixonado, de admiração, na minha mãe. Antes porém de tentar dizer qualquer coisa, parece-me que ela interpreta meu abrir de olhos como um tiro de início de maratona, e com a certeza de que somos dois corpos e uma só mente, ela me beija os lábios, a ponta do nariz, sua língua invade minha boca e começa a serpentear, e o resto é inventado,criado, improvisado. Porém, parece-me que de alguma forma já havíamos combinado. 

Chove? Venta? Troveja? Cães latem? Sirenes? Buzinas? Turbinas?  Quando estamos juntos, tudo serve de fundo musical, ou simplesmente inexiste.

Agora sei de onde vem o melhor dos perfumes.   Vem do corpo dela.  Seu corpo emana vinho e mel. Vinho do seu beijo, e o mel... Bem o mel, eu sempre recebo como prêmio e vem sempre acompanhado de uma música sublime e arrebatadora.  

A princípio, parece que não há rima, melodia, ou respeito ao mínimo acorde, porém, basta olhar para seu corpo neste momento, e vejo que a melodia manda ou obedece aos movimentos corporais, que começa com um abrir de braços, e que ao retrair-se de volta se assemelha a um furacão tropical que arrasta o que encontra em seu caminho.

Pode parecer covardia, mas aproveito-me dos seus olhos fechados, e acompanho suas mãos arrastando os lençóis. Orgulhoso como um artista que completou sua obra, e com a satisfação de um menino que aprontou uma travessura.

Porém, parece-me que essa criatura conseguiu de alguma forma o meu “manual de instruções”, pois com a segurança de um criador que controla sua criatura, chega a vez dela espremer-me como um fruto cítrico, e sugar-me, e arranca-me gritos, choros, uivos, por vezes tudo isso e muito mais juntos.   

Por fim, peço desculpas a todos que não passam ou nunca passaram por isso, e até talvez quem sabe, me acham bobo, louco, lunático, irresponsável, e inexplicavelmente contrariando o instinto animal do homem, sendo eu,um homem fiel, focado numa só pessoa.   Gostaria apenas de esclarecer que tudo isso são seqüelas incuráveis de algo inexplicável que se chama AMOR.

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Texto registrado em Cartório. E-mail: luizcruzilia@hotmail.com

 

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